segunda-feira, 10 de novembro de 2008

tinha um domingo na minha segunda-feira.

hoje tinha uma aranha na minha parede, uma chuva pesada no meu céu, uma prova na minha tarde e um "você não é capaz" na boca do meu avaliador. hoje tinha um salário baixo na minha conta, um "desista!" em todos os homens, um "verificaremos a sua situação em fevereiro" no meu calendário. hoje tinha um chocolate amolecido no meu armário, um furo na minha blusa, uma lembrança rasgada no bolso da minha calça. hoje: cabelos sujos na minha cabeça, um escorregão no meu passo. hoje tinha um começo de decadência no meu destino, um frio na barriga de queda pós-auge, um "você fodeu com o seu grupo" na minha consciência.

hoje, mais do que nunca, tinha um cabelo no meu ovo, uma mosca na minha sopa, uma pedra no meu caminho e um domingo na minha segunda-feira.

domingo, 26 de outubro de 2008

Rir é muito úmido.

Disse Chomsky que "idéias verdes incolores dormem furiosamente" e cheguei à conclusão de que não há nada mais bonito que as anomalias semânticas. Elas suprem algumas das minhas necessidades fisiológicas. Sério. É como se mimetizassem o efeito da serotonina.

A raiz quadrada da mesa de Mila bebe humanidade. Rir é muito úmido. O fato de que o queijo é verde tropeçou inadvertidamente. Minha escova é loira e alta.

Ai.
<3

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O post anterior apresentou algum tipo de problema e ficou em forma de poema (bastante inusitado, diga-se de passagem). Não quis deletar, porque há um comentário. Então, posto novamente, em sua forma 'original':

"...E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto num corpo. Mas ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos ser contato com tal lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições. Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da verdade sem suspeitá-la."

domingo, 19 de outubro de 2008

prisionnière.

"...E eu compreendia a impossibilidade contra a qual o amor se choca. Imaginamos
que ele tenha por objeto um ser que pode estar deitado à nossa frente, oculto
num corpo. Mas ai! Ele é a extensão desse ser em todos os pontos do espaço e do
tempo que esse ser ocupou ou vai ocupar. Se não possuímos ser contato com tal
lugar, com tal hora, nós não o possuímos. Mas não podemos tocar todos esses
pontos. Se ainda nos fossem indicados, talvez pudéssemos tentar alcançá-los. Mas
tateamos às cegas sem encontrar. Daí a desconfiança, o ciúme, as perseguições.
Perdemos um tempo precioso seguindo uma pista absurda e passamos ao lado da
verdade sem suspeitá-la."
[Proust, em La Prisonnière]

Je suis une prisionnière. Je suis perdu. L'amour n'est pas pour moi. Não importa em que língua eu o diga, o amor... ele nunca será para mim.

domingo, 5 de outubro de 2008

o cheiro do ralo.

você não pode querer envelhecer ao lado daquela bunda sem tomar junto com ela a mulher que a carrega. e o estômago dessa mulher também se estufa depois do almoço, ela também tem o bafo matutino e, pela bunda dela, sai merda com o mesmo cheiro insuportável que a sua. o mesmo cheiro do ralo. você não poderia suportar outra pessoa igual a você mesmo, não é? por isso você deseja a bunda. beijar a bunda, olhar a bunda, chorar junto a essa bunda. matar sua fome de bunda. você ainda não se deu conta de que fome de corpo nem sempre com corpo se mata? para isso há comida. há bananas e animais. não sei de onde tiraram que fome de corpo tem de se matar com um outro corpo, ao qual vem anexada uma alma. sexo e alma não combinam. não entendo porque resolveram que era bom associá-los. se eu fosse o sexo, não quereria alma como sócia. má parceria, mal sucedida.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

eu reluto
em te lutar
e, de luto,
você luta
por mim.
e eu
c e d o.

para brincar,
você reluta
em me lutar
e eu, de luto,
te luto
e você
tarda.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

chuva de anti-tédio. pode?

será que tudo isso foi culpa do tédio? há pouco menos de duas horas reclamei. nadadediferenteacontecetododiaéomesmoeuquerosurpresas. não queria me liquefazer em tédio. já havia tomado por providência a leitura do roteiro de "um cão andaluz", para ver se eu criava um sonho acordada, na impossibilidade de dormir. quando a vaca mugiu no meu telefone, indicando que era hora de voltar ao dia que era o mesmo de todos os outros, parei de ler. fechei os sonhos no trecho "neste momento vai acontecer uma coisa extraordinária" e, em uma fusão do mundo de buñuel com o real, alguma coisa de diferente, em um dia que não era o mesmo, aconteceu. choveu. choveu granizo e muito. muito choveu granizo por muito tempo. o teto sem laje deixou que chovesse enquanto eu tentava ensinar, sem garganta - se em "mute" por causa da chuva ou por causa da noite anterior varada por "Rs" glotais, não sei - "Who are you?". quemévocêquecoréseucarro(amassado pela chuva)vocêéolulaquantosanosvocêtem quando o mundo cai na sua cabeça? "mãos ao alto!" e tudo te pega de assalto quando o que você mais quer é fugir da rotina.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

http://www.youtube.com/watch?v=tpqfWJ9TERQ&feature=related

fechem os olhos. façam silêncio absoluto. escutem.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

noch einmal.

"you know when you've found it
there's something i've learned
'cause you feel it when they take it away"

domingo, 20 de julho de 2008

ontem eu perdi no resta um e tenho andado com os olhos bem abertos.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

achado.

Se eu escrevo, choro, rio, me perco ou me entrego, é porque alguma coisa eu tenho para mostrar. Este meu "eu" sem graça ou nexo, que roga por lapsos de euforia. "Eu" paradoxo e melodia, que não quer nunca parar. Que a alegria seja momentânea, duradoura, eterna. Inócua. Quero ser inquebrantável, leve e insana. Quero jogar beijos ao vento sem esperar tê-los de volta. Quero do mar o ar molhado de sal. Sentir o barulho das ondas e ter os pés cravados em conchas desiguais. Ter nos cabelos o vento e fazer do momento uma dança sem fim. Poder subir nas pedras e me jogar sem medo e gritar aos quatro ventos que só quero me descobrir. Talvez eu queira das montanhas o frescor da brisa e o perfume da flor. Aquela delicada flor do manacá. Talvez eu queira ouvir a água da cachoeira agredir as pedras de modo tão suave que não as faça rachar. Quero poder dizer ,sem pudor, que não senti, que eu não sinto. Que o meu desejo de euforia não passa de um capricho. Que toda a minha controvérsia se resume em um barroco porco e maldito. Que eu não sou o que eu queria ser: inquebrantável, leve e insana. Sou simplesmente alguém perdida na humilde complexidade do seu ser. Ou não ser? Eis a questão.

Texto do blog antigo. Dezembro de 2005.
Eu escrevia bonitinho, antigamente.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Espelho mágico

Da eterna procura

Só o desejo inquieto, que não passa,
Faz o encanto da coisa desejada...
E terminamos desdenhando a caça
Pela doida aventura da caçada.

Mas...

Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura,
Tendo-os na ponta do nariz!

[Mário Quintana]